Preservativo Feminino

A UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) estima que, em dezembro de 2005, 40,3 milhões de pessoas no mundo estavam infectadas pelo HIV, e que a Aids foi responsável pela morte de 25 milhões de pessoas, desde que foi identificada em 1981 (ONUSIDA/OMS, 2005).

No Brasil, de 1980 a 30/06/2005, segundo o Ministério da Saúde, foram notificados 371.827 casos de Aids, dos quais 40,0% (148.873) concentrados no estado de São Paulo (MS, 2005). Nos últimos anos, tem havido uma visível feminilização da epidemia no país: a razão de masculinidade que era de 26,5:1 em 1985, passou a ser 2,4:1 em 1996 e a 1,5:1, em 2005, fato já analisado por vários autores (Bastos, 2001; MS, 2002; MS, 2005)

O crescimento da epidemia pela transmissão heterossexual vem ocorrendo em maior velocidade do que pelas outras formas de transmissão entre os adultos com treze ou mais anos de idade; considerando-se os homens, foi responsável por 21,7% dos casos notificados em 1994, 35,4%, em 2000 e 44,8%, em 2005. Entre os casos femininos, tem sido a principal forma de transmissão desde o início da epidemia: 79,8% em 1994, 93,4% em 2000 e 94,6%, em 2005 (MS, 2005).

Similar ao que vem ocorrendo no Brasil, vários estudos têm relatado que a vulnerabilidade da mulher ao HIV e à Aids vem aumentando rapidamente, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, em todos os continentes, vale ressaltar que a violência sexual ou o medo de sua ocorrência interferem na negociação de uso de preservativos masculinos com os parceiros sexuais, ampliando a possibilidade de relações desprotegidas (Mane e Aggleton, 1999, UNAIDS, 2006).

No sentido de reverter esse quadro, tem havido esforços mundiais para o desenvolvimento e adoção de novas alternativas de proteção, que propiciem a dupla proteção, ou seja, evite a gravidez não desejada e as DSTs/HIV, e que propiciem o empoderamento das mulheres, entre as quais destaca-se o preservativo feminino (PF) (WHO, 1993)

O PF foi desenvolvido no final dos anos 80, por Lasse Hessel, médica dinamarquesa, que acreditava que por ficar sob controle das mulheres elimina ou, pelo menos, facilita a negociação de uso de proteção. A sua versão moderna foi colocada no mercado suíço com o nome de Femidom, em 1992 (WHO, 1997).

O preservativo feminino é um tubo de poliuretano transparente com cerca de 16 cm de comprimento por 7,8cm de largura. Possui dois anéis flexíveis, também de poliuretano. Um deles fica solto dentro do tubo e serve para ajudar na sua inserção e fixação junto ao colo uterino. O outro anel forma a bainha externa do preservativo que, quando colocado, cobre parte da vulva. É pré-lubrificado e deve ser usado uma única vez. (WHO/HRP, 1997). Tem validade de 60 meses após sua fabricação, segundo o FDA – Food and Drug Administration – dos Estados Unidos.

No Brasil, o preservativo feminino, comercializado como Reality, é relativamente recente, obteve autorização para comercialização pelo Ministério da Saúde, em dezembro de 1997. Está sendo incorporado a serviços de saúde selecionados e vendido em algumas farmácias e redes de supermercados por cerca de R$ 15,00 a unidade.

O PF representa hoje, sem dúvida, uma importante alternativa contra a pandemia do HIV/Aids e tem sido recomendado pela Organização Mundial de Saúde, UNAIDS e outras agências internacionais, como o Family Health International que estimularam estudos sobre sua aceitabilidade em vários países, inclusive no Brasil. (OMS, 1993; MS, 2002).

Estudos laboratoriais têm mostrado que in vitro é mais resistente do que o preservativo masculino e menos sensível ao calor, o que facilita o seu armazenamento. In vitro mostrou-se impermeável aos agentes causadores das DSTs, inclusive o HIV (Drew et al, 1990; Voeller et all, 1991). Não é afetado pelo uso de lubrificantes a base de óleo e ou por espermicidas cujo princípio ativo seja o nonoxinol 9.

Publicações de revisão sobre o assunto mostram que a aceitabilidade imediata do preservativo feminino varia de 37% a 96%, e que, apesar das diferentes abordagens metodológicas adotadas e populações investigadas, é viável. Contudo não se pode deixar de considerar que ele é sensível a fatores sociais, econômicos e culturais que interferem na sua aceitação e uso (WHO, 1997, Hoffman et al, 2004).

No Brasil, os estudos também observaram esta variabilidade, no estudo realizado em um ambulatório de referência para a saúde da mulher no município de São Paulo, das 101 mulheres selecionadas, 78 aceitaram experimentar, das quais 34 voltaram para uma segunda entrevista, destas, 25 chegaram a usá-lo e 19 referiram ter gostado (Buchalla et al., 1998). Em outro, realizado em serviços de planejamento familiar de cinco cidades, 31% das mulheres se consideravam em uso, aos três meses de seguimento (Diaz et al., 1997).

Em outros, sua aceitabilidade imediata pelas mulheres foi maior. No Projeto Beija Flor, realizado no município de São Paulo, com recrutamento através de ONG (Organizações Não Governamentais) feministas e de Aids, a taxa de continuidade de uso, entre as 103 participantes, foi de 75%, aos 112 dias de seguimento (Kalckmann et al., 1998). No Aceitabilidade do condom feminino em contextos sociais diversos, realizado em seis cidades brasileiras, o seguimento das 1782 participantes mostrou que 70,1% delas referiam estar em uso após 90 dias de seu recebimento. (Barbosa, E, Berquó, E e Kalckmann, S, 1999). Nestes estudos, as mulheres participaram de atividades educativas iniciais que, além de orientá-las sobre o manuseio do PF, propiciavam discussões sobre sexualidade e questões de gênero, o que provavelmente interferiu na maior adesão ao método.

Nos diferentes estudos, a autonomia conferida pelo PF tem sido um dos atributos mais valorizado pelas mulheres, e apesar da maioria dos homens ter gostado e desejado continuar o seu uso, a “rejeição dos parceiros” tem sido um fator importante para a descontinuidade do método. No projeto Beija-Flor, 37,4% dos parceiros, segundo as entrevistadas, não o aceitaram, levando a maioria delas a desistirem de seu uso. No Aceitabilidade do condom feminino em contextos sociais diversos, observou-se que 25,7% e 32,3% das mulheres que descontinuaram o uso, até 15 e 90 dias, respectivamente, o fizeram por sugestão/imposição do parceiro (Kalckmann, S et al, 1998; Barbosa, E, Berquó, E e Kalckmann, S, 1999)

Assim, apesar do preservativo feminino ser um método cujo manuseio é controlado pela mulher, a sua aceitação pelo parceiro é fundamental para a continuidade de seu uso. Não podemos deixar de considerar as questões trazidas por eles, pois apesar de não serem, via de regra, incluídos nas discussões sobre métodos contraceptivos, suas opiniões interferem, muitas vezes, determinando a forma como as mulheres conduzem sua saúde sexual e reprodutiva.
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